30 mars 2012

Bilinguismo - Blogagem Coletiva - Mães Internacionais

Esta sendo bem interessante ser mãe de uma criança bilíngue. 

Beatrice esta com 2 anos e 10 meses e tem uma boa desenvoltura no português. Ela canta, conta historias, inventa diálogos, fala no plural, conjuga verbos e estabelece situações no passado. A conquista da fala em si é algo incrível e quando ela vem com um segundo idioma acoplado, posso dizer que é encantador e comprova que a mente de uma criança é ativa, incansável e extremamente absorvente.

O português é a sua língua materna, faz parte da sua cultura e será sempre o elo de comunicação conosco e com o restante da família. Ela será alfabetizada em francês e acredito que mais tarde, depois do domínio deste idioma, aprendera a ler e escrever em português.

Ela também fala francês, mas, por enquanto, as frases são mais especificas e é nítida a sua evolução depois que as aulas começaram. Alias, o nosso plano era justamente de que ela começasse com as aulas um pouco mais adiantado (três meses antes dos três anos de idade) para acostumar-se ao idioma e de permanecer na escola somente na parte da manhã*. Assim, quando o ano letivo começar para valer, em setembro, ela estará se comunicando bem em francês.

Algumas situações vividas na pratica:

*** Ontem voltávamos da escola ela falou « je porte mon sac a dos, avec mes jouets »  (eu levo a minha mochila com os meus brinquedos). A frase completíssima não foi ensinada em casa, é fruto de influência externa. Com isso fica claro que as aulas, os amigos, as professoras, os livros, DVDs, musicas e o que tudo mais que se relacione ao idioma francês será naturalmente (e lindamente) incorporado ao seu vocabulário.

*** Dia desses pronunciei o nome da Madame “MURIEL”, que é a assistente da sala de aula. Falei o U como o nosso U, de urso. Béatrice falou, (não mamãe) “é MIIIIIIRRRIEEEELLL”, com biquinho e o U com som de “i”.  Durma com esse barulho minha gente! A correção veio pronta, na hora.

*** Às vezes ela inventa conversas, diálogos, finge que lê e, o que sai da sua boca, não é nem francês, nem português. Pela “musicalidade” e nuances de entonação da sua voz, percebo que ela “tenta” (incansavelmente) falar em francês. Eu compararia a um bebê que balbucia e ensaia suas primeiras palavras.


*** Falando em inventar, Béatrice cria novas palavras misturando os dois idiomas, especialmente nos diminutivos. Assim, bonequinha (petite poupée) vira “poupéeZINNHA” (ela fala pupezinha) e ovelhinha (petit mouton) vira “moutonZINHO” (ela fala mutonzinho).

*** Ela demonstra curiosidade em relação o idioma quando pergunta, "mamãe, como é blusa em francês?" ou "mamãe, como é pirulito em francês?". Ela tem consciência de que ha duas formas de falar a mesma coisa.

*** Ela tem vários livros em francês. Ela pede lermos a historia em português (e invariavelmente, eu conto de um jeito e Junior de outro, cada um com sua versão e tradução!) e, às vezes, pede para ser contada em francês. Agora, se um francês nativo ler a mesma historia, ela ouve atentamente e, até o presente momento, nunca pediu para ativar a tecla SAP para fazer a leitura em português.

*** E ela tem vários livros, DVDs e CDs de musicas em português. E com isso mantem-se conectada com o idioma.  Com isso esperamos manter acesa a chama do idioma pátrio, pois sei que daqui para frente haverá um estreitamento natural (imposta pelo meio) com a língua francesa.

Eu acho um privilegio aprender um segundo idioma de forma espontânea e natural. Estou curiosa para ver a Béatrice daqui uns anos falando como uma francesa nativa, com direito a biquinho, finesse e élégance. Que marrrravilha!

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Como estou num período montessoriano, vou citar um trecho do livro “L’esprit absorbant de l’enfant” (O espirito absorvente da criança e ha tradução deste livro para o português), escrito pela própria Maria Montessori, no qual ela fala sobre o período sensível da aquisição da linguagem:







“Os anos vitais

Há um mestre vigilante dentro da parte mais intima de cada criança, o qual poderíamos dizer, sabe obter os mesmos resultados em todas elas, em qualquer pais onde elas se encontrem. A única linguagem que o homem aprende perfeitamente é, sem duvidas, aquela aprendida na primeira infância, que nenhuma pessoa poderia lhe ensinar. Se mais tarde a criança aprender outro idioma, com a ajuda de algum professor, não obterá o mesmo resultado, a mesma exatidão que ele poderia ter adquirido na primeira infância. Existe uma força psíquica que ajuda o seu desenvolvimento. E não somente para a sua linguagem; aos dois anos, ela sera capaz de reconhecer as pessoas e todos os objetos do seu meio.”

O período sensível da linguagem em uma criança, segundos os estudos de Maria Montessori, vai do nascimento até os seis anos de idade. Por isso que para nos, adultos, há maior dificuldade e maior empenho em aprender um segundo, terceiro ou tantos idiomas, o que, para uma criança, é absorvido com facilidade e naturalidade.

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O post de hoje é relacionado com a Blogagem Coletiva das Mães Internacionais e quer saber como outras mães brasileiras vivem com dois, três, quatro, cinco idiomas ao mesmo tempo? Clica aqui, vale a pena a leitura.

23 mars 2012

As estações do ano são ateliers a céu aberto – « Montessori à la Maison » (parte 1)

Adoro a primavera e desde que vim morar na França comemoro, vibro, mudo de humor com a chegada desta estação. São três longos meses de frio e com poucas opções de lazer ao ar livre e, posso garantir, ficar com uma criança em casa durante boa parte desse período é um grande desafio. Haja imaginação. E só mesmo a Béatrice para me fazer sair para brincar um pouco na neve, coisa que, alias, ela curte bastante.

Por mais que o inverno tenha sido curto, por causa das férias que passamos no Brasil, chega uma hora que o corpo pede o sol, os olhos querem ver o colorido das flores e os nossos sentidos querem sentir o seu aroma. Sinto uma alegria imensa quando aparecem as primeiras flores e quando ouço o canto dos passarinhos logo cedo (acredita que no inverno o silêncio é quase total? Não esqueçam que moro no “campo”).

O tempo aqui em Laon começou a melhorar antes da data oficial do equinócio da Primavera. Eu e Béatrice demos as boas vindas ao primeiro 18°C do ano e fizemos um piquenique no nosso jardim. Peguei o que vi pela frente: abricots, maçã e pão integral. Estendemos um pequeno tapete, colhemos algumas flores e folhas, representando os “tesouros da natureza” trazidos pela Dona Primavera.

Laon, 18°C

Nossas boas vindas à primavera!
E ela recebe com entusiasmo e curiosidade as novidades da estação e ha que se concordar com uma coisa: não tem professora melhor que a Mãe Natureza para explicar que as flores e folhas despertam e que os animais e insetos dormem no inverno e que acordam na primavera.

E foi bem legal explicar isso diante de uma arvore infestada de joaninhas, que saíram de dentro de seus esconderijos secretos (provavelmente dentro de buracos nas arvores) para aproveitar o sol primaveril. E ela que, não é de hoje, manifesta uma fascinação pelo inseto, ficou encantada com tantas famílias de joaninhas juntas num só local.
E na nossa ida semanal à biblioteca encontrei este livro aqui, bem ilustrado, onde mostra a interessante vida e hábitos das joaninhas.


Agora vamos falar sério, você uma pessoa adulta e culta, bem informada, alguma vez na sua vida parou para pensar no que fazem as Joaninhas nos primeiros dias da primavera? Será que tomam banho de sol ou é a época de acasalamento? Se não sabe a resposta, olha de novo a foto, ela explica direitinho.

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E ainda na exploração do nosso jardim, Béatrice removeu uma pedra e, pela primeira vez, viu uma minhoca. Pegou, apertou, esticou e olhou bem a bichinha e perguntou « ela voa?" » e em seguida « cadê os olhos? ». Não é perfeito poder explicar as coisas na pratica e ela mesma chegar às suas próprias conclusões?

Ela mesma viu que a minhoca não tem asas, patas e olhos!

Depois de tanto esticar a bichinha, não deu outra, ela virou duas e ela ainda me pergunta “o que foi que aconteceu”? E eu fiquei naquela enrascada, sem saber como explicar sobre a vida e morte das minhocas e da sua capacidade de regeneração; que, na verdade metade dela morreu e a outra não e que ela, um dia, ira encontrar a mesma minhoca quando revirar a terra no jardim. Complicada, complexa essa vida (e morte) das minhocas.

Antes mesmo de eu bolar a melhor resposta para a sua inquietante pergunta, ela veio com essa: “mamãe, cola” (a minhoca)! Eu tive que rir e embarcar na argumentação e solução tão criativa, simples e obvia.

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Maria Montessori* considera que todas as crianças têm um potencial cientifico e eles têm prazer em observar as coisas e descobrir o porquê e como é o universo que o cerca.

«Nunca se esqueça de que o olhar de seu filho está mais próximo do solo. Ao olhar as coisas do seu ponto de vista, descobriremos o encantamento dos nossos pequenos. Deixe-se guiar por seu filho e examine com ele tudo que lhe chama a atenção – por exemplo, uma joaninha ou uma flor. Em momento algum perca a paciência, observe-o, respeite e acompanhe seu ritmo.

Quando as crianças aprendem por suas próprias experiências, no tocar e sentir. Nenhum livro descrevera em linhas e imagens todo o mundo que existe em torno da criança. Os livros e outros suportes ajudam às crianças a se lembrar das impressões e experiências vividas com intensidade, mas o essencial é construir a partir da observação direta e da experiência tátil.»

Trechos extraídos do livro « éveiller, épanouir, encourager son enfant, la pedagogie Montessori à la maison », de Tim Seldin. Fiz a minha livre tradução.








Bom equinócio de primavera para quem esta no hemisfério norte e bom equinócio outonal para quem esta no hemisfério sul!

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Já faz algum tempo que tenho me dedicado em aplicar a pedagogia de Maria Montessori em casa, o que na França é chamado e conhecido como Montessori à la Maison. Foi por meio dos livros e extensa obra e legado deixados pela grande mestra que passei a entender os « períodos sensíveis » de uma criança e isso tem me guiado na compreensão do comportamento da minha filha (desde a fase do colo, do contato pele-a-pele , a autoafirmação, a fase do « deixe-me fazer sozinho », passando ainda pela disciplina e imposição de limites). Aos poucos vou inserir trechos de livros e o nosso dia-a-dia e de como tem influenciado o nosso modo de viver em família em respeito às etapas de desenvolvimento da Béatrice.

10 mars 2012

A Branca de Neve e os Quatro Bombeiros... Sobre casas e mansões e bonecos “antissexistas”



Semana passada fomos a uma loja de brinquedos gastar um “cheque-presente” que ela ganhou no final de ano. Rodamos a loja e deixamos a Béatrice fazer suas escolhas. Logo de cara, ela agarrou uma boneca de cabelo ruivo, praticamente idêntica a outra que ela já tem. Explicamos que ela já tinha uma (a única diferença era a cor do cabelo) e que seria legal escolher outro brinquedo. 


Ela passeou mais um pouco com a boneca e, lá pelas tantas, trocou-a por um gatinho de pelúcia com uma mamadeira na boca. A escolha se justifica pelo fato de Béatrice adorar gatos. Mas sinceramente falando, o bichinho era meio feinho e desta vez, a escolha foi barrada sob a explicação de que ela já tem outros em casa e que este logo ficaria encostado e esquecido em algum canto.


Andou um pouquinho com o bichano no colo, colocou-o no lugar e escolheu outro brinquedo que estava logo ali na sua frente, na prateleira de cima: uma Moranguinho cor-de-rosa, cheirosa e com florezinhas iluminadas e bastava apertar um botão para ela, também, cantar uma musiquinha. Tenho as minhas ressalvas e, até agora, nunca compramos um brinquedo sequer que ascende, apaga, canta ou dança sozinho. Os que ela tem, e nem são tantos assim, foram dados de presente. Cada coisa no seu tempo.


Agora eu acho mais importante que ela brinque com elementos simples, que crie situações e diálogos e que sua imaginação flua e dê “vida” às suas bonecas. Acredito que a escolha da Moranguinho também se justifica pela “familiaridade”, pois trouxemos do Brasil algumas bonequinhas deste tipo (todas de segunda mão, doadas pela prima). 


Finalmente ela se encantou com a Branca de Neve, na versão bailarina. Ela já tem a Belle (ruiva) e a Chochette (loira) e, por ser um personagem diferente, pensei com os meus botões que seria interessante fazer um trio de amigas, todas elas, por coincidência, de saias bem curtas.


Ainda para ter certeza da sua escolha, sugeri a Branca de Neve “tradicional”, com vestido longo amarelo e corpete azul. “Não mamãe, quero essa” (a de saia “tutu”). Ok, ficou com a versão bem menos “princesa” e bem mais pelada. 


Ainda com créditos para torrar, escolhi um brinquedo com um caráter pedagógico: um cordão (tipo cadarço) e missangas grandes de madeira para ela manusear e brincar de fazer colar. Mamãe aqui pensa no seu desenvolvimento da motricidade fina e, também, para dar uma variada na versão macarrão tubinho dentro do cadarço, que já rendeu alguns colares feitos à lá maison. 


E, como tinha mais um tiquinho de crédito, escolhi para ela um terceiro brinquedo: um corpo de bombeiros completo! Os homenzinhos vêm equipados com megafone, extintor de incêndio, walk-talk, machadinha e até mascara de oxigênio. 


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Eu confesso que tenho certa dificuldade em escolher brinquedos para a Béatrice quando o negocio envolve marca disso ou marca daquilo, ou então comprar Barbies, Polys e acessórios, ou bonecas que fazem tudo, desde cocô a andar sozinha. 


Eu não me vejo comprando esses brinquedos compulsoriamente ou, pelo menos, questionar se é disso mesmo que ela precisa “agora”.  


Eu não sei como será amanhã, se ela pedir “mamãe, quero a Barbie que voa, salta de paraquedas, anda de BMW e mora numa mansão”, não sei se estarei disposta a bancar uma coleção ou ficar antenada com os últimos lançamentos e, sobretudo, estimular esta modalidade de brinquedo 100% voltado para um mundo de luxo e cor-de-rosa.


Se no futuro ela tiver amiguinhas que tenham esses brinquedos, se ela demonstrar interesse e pedir, ainda devo pensar como proceder ou como contornar a situação. O que posso dizer é que eu procuro evitar os excessos e que hoje, Barbies e Cia., não combinam com a criança que se diverte com o que tem e isso inclui seus bichos da savana, fazenda, bonecas de pano e brinquedos de madeira. 


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Fato é que Ela escolheu uma boneca e Eu escolhi um corpo de bombeiros! 


O uso da TV aqui em casa é controlado e não são raros os dias em que o aparelho fica desligado. Ela assiste DVDs e não temos canal infantil pago e, com isso, poucas vezes vê propagandas comerciais. Ela tem o livro da historia da Branca de Neve e já assistimos juntas algumas partes no youtube, ou seja, ela tem familiaridade com o personagem. Sabe que ela come uma maçã, que tem uma bruxa e que faz amizade com sete gentis anões. De certa forma a sua escolha foi influenciada pelo que ela já conhece e o mesmo se diga das escolhas anteriores.


Como ela esta na encantadora fase de contar e inventar historias (a mãe aqui acha que sua filha é uma prodigia com forte inclinação artistica-teatral), achei que a Branca de Neve seria uma boa amiga da Bela e Sininho e que as três juntas dariam um bom enredo para a fantasia e imaginação dela. 


E o resumo da opera é o de que a Branca de Neve, de fato, virou a melhor amiga da Belle e ainda por cima ganhou quatro amigos protetores e corajosos, os “anões-bombeiros” (é assim que eu os chamo), que a previnem de não comer a maçã envenenada e a orientam a comer “goiabas”. E pronto, a historia da Branca de Neve ganhou uma nova versão. Viva a imaginação! 


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E eu, porque raios escolhi um corpo de bombeiros? Boa pergunta. 


Tenho alguns critérios para comprar brinquedos e eu procuro ser cuidadosa e usar do bom senso. 


Não é um corpo de bombeiros qualquer, mas sim “equipe” de quatro bonecos de madeira, bem bonitinho, bem acabado, flexível e articulado. 


Faz algum tempo que dou preferência pelos brinquedos de madeira, pela sua simplicidade, suavidade do toque, do manuseio do material, durabilidade e o respeito pelo que vem da natureza. E quando vejo um brinquedo de madeira dando sopa e se ha condições de comprar (aqui brinquedos ecologicamente corretos também custam mais caro), eu não penso duas vezes, eu compro. 


Por isso, dois importantes requisitos foram cumpridos: ser de madeira e o preço justo. 


Outro fator é que sou contra a submissão sexista imposta às crianças por meio de brinquedos, publicidades, catálogos e tudo mais que condicione a categorização do “só para meninos” e “só para meninas”. 


Eu procuro filtrar e reflito, acima de tudo, na finalidade do brinquedo e no que ele poderá ser útil no desenvolvimento e criatividade da minha filha e pensar desta forma afasta a sedução e o impulso pela fofice, “frufruzice” cor-de-rosa ou pelo brinquedo da vez, pelo esta na moda. 


Não me agrada a ideia de que, para meninas, só panelinhas, Barbies e Cia. e para meninos personagens musculosos, guerreiros, brinquedos de construção e, o pior, armas de brinquedo (me da arrepios escrever isso). Porque os meninos podem se imaginar pilotos de corrida, construtores/engenheiros, astronautas, bombeiros ou aviadores e as meninas devem se contentar e sonhar com a casa “luxuosamente” decorada?


Sem contar que os brinquedos para meninas ensinam e as estimulam, desde cedo, a serem vaidosas, consumistas e assumirem o papel principal nos serviços domésticos. 


Por isso é que não me vejo comprando uma casa assim: 






Definitivamente, não consigo limitar e basear as escolhas somente na beleza e delicadeza cor-de-rosa, que o “padrão impõe” às meninas. 


Ao contrario, eu acredito que uma menina pode brincar com os bonequinhos de corpo de bombeiros e carrinhos (que a minha filha também tem), assim como meninos podem brincar de fogão, panelinha e casinha. 


Um menino que brinca de limpar a casa com uma vassourinha ou aspirador ou que goste de fazer comidinhas no fogão esta aprendendo lições da vida, por meio de uma brincadeira. Quem sabe ai esteja sendo plantada a semente de um futuro homem colaborador dos afazeres domésticos dentro de casa (e numa visão macro, na construção de um homem menos machista), coisa rara hoje em dia. Na França é muito comum os meninos terem a sua cozinha de brinquedo e não é a toa que maior concentração de chefs de cozinha estão aqui. A brincadeira de hoje pode revelar as potencialidades do amanhã. 


Reflito também que uma casa cor-de-rosa e com elevador não corresponde à realidade, a realidade da nossa casa, dos vizinhos, nossos amigos, nossa família e tudo mais que cerca a Béatrice. Acho muito mais democrática e honesta, esta escolha:




Devo dizer que Béatrice tem sim seus brinquedos de plástico e também tem muita coisa em tecido, outro alvo de nossa preferência.


Mas a diferença é que quando penso em comprar algo de maior qualidade e que o brinquedo custe um pouco mais caso, eu não consigo pensar em Barbies e Cia e pagar uma pequena fortuna por isso. 


Se for para gastar dinheiro (aqui vale as economias para um presente especial de aniversario ou natal), prefiro, infinitamente, os de madeira. 


Ela tem a sua Belle e Branca de Neve, tem vestido de princesa cor-de-rosa (delicadamente feito pela tia) e brinquedos de personagens de desenho animado. O que eu procuro é o bom senso e não ficar pensando somente nesse universo tão feminino e ouso dar e oferecer outros brinquedos interessantes, mesmo que eles sejam rotulados de “só para meninos”. 


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Seguindo essa linha de não estabelecer um padrão discriminatório e sexista de brinquedos, a IKEA teve inteligente sacada em fabricar bonecos de pano e que, aparentemente, não tem sexo definido.


Eu comprei o menino/a que tem a carinha de oriental (estou de olho no loirinho e outro da cor negra) e algumas roupinhas: 




Eles entenderam que crianças fantasiam, imaginam, criam e tanto faz se o alvo da imaginação é um bonecO ou bonecA, menino ou menina, tudo depende da brincadeira que criança inventa na hora. Crianças têm “seus amiguinhos/as, irmãozinhos/as” pra cuidar, brincar de colocar e tirar roupas, levar para todo o canto para passear. Isso é salutar e faz parte obrigatória do seu desenvolvimento. 


Outro ponto positivo é que boa parte dos brinquedos da IKEA é de pano, o que reforça o perfil de engajamento sustentável e ecológico desta empresa. Só para lembrar, a IKEA é sueca e a Suécia é o primeiro pais do mundo em igualdade entre os gêneros (irremediavelmente arraigada na sua cultura) e um dos primeiros em qualidade de vida, além de terem um respeito invejável na educação de suas crianças, portanto, não me causa surpresa a ideia e concepção destes bonecos e dos brinquedos em pano tenha partido dela. Eu acho genial, educativo, apropriado para crianças e o preço é otimo (9,99 euros!).

2 mars 2012

Voltando... A garderie, as férias no Brasil, a Maternelle e a (in)domavel “BIRRAtrice”

Estou voltanto, aos poucos mas voltando.


Há um grande vácuo entre desenvolvimento da Béatrice e do que vem sendo escrito aqui no blog. Isso me incomoda, pois estou deixando de registrar o desenvolvimento de uma menininha que se revela meiga, mas com personalidade forte no auge da idade da autoafirmação; curiosa, contadora de estorias, que gosta de cantar, desenhar e que me ajuda a fazer bolos e comidinhas.


Minha "petitA" cresceu, mas ainda não dorme sozinha a noite inteira no seu quarto e faço a mea culpa para o processo seguir a passos de tartaruga, pois adoro quando, de madrugada, vai para a minha cama e faz carinho no meu rosto (ao invés de colocá-la de volta na sua). Minha "petitA" cresceu, vai para a escola e da tchau, segura de si e sem choros. E eu me transformo, me entrego, vivo – intensamente - cada fase junto com ela. Ela e a vida me ensinam, sempre.


E é por isso que volto, para tentar recuperar o tempo perdido e reconhecer que o vicio de blogar me pegou (faz tempo), pois daqui surgem dialogos, ideias, risadas (choro também), reflexões, amizades virtuais que se transportaram para o "mundo real" que tiveram o Journal de Béatrice como conector. Esse burburinho todo faz uma falta danada!


Eu gostaria de agradecer, imensamante, todas as mensagens que recebi durante o período "off", e-mail FB e até na “vida real” perguntaram se estava tudo bem e quando eu voltaria a escrever. 


Meninas, vocês são demais, obrigada, obrigada, obrigada e eu agradeço pela paciência de vocês por aguardarem alguma movimentação por aqui (e por incrível que pareça, ainda surgiram mais seguidores, sinal que o blog tem algo de interessante!). Retribuo as mensagens de ótimo 2012 e espero que ele seja repleto de conhecimento, passeios, notícias boas, AMOR, família unida e um lar harmonioso para todas nós.


E então vamos lá... Em uma breve retrospectiva...


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A Garderie


A Bibi frequentou durante os meses de setembro e outubro. Foram dois meses de aprendizado para a família e entramos numa nova rotina. Dormir cedo, deixar as roupas separadas, preparar o lanchinho com antecedência, chegar nos horários combinados sem atrasos. As professoras e assistentes foram bem bacanas e atenciosas e até aprenderam algumas palavras em português.


Além das duas vezes por semana na garderie, ela também começou a ir, uma vez por semana, ao Mini-Club, que é um ateliê de artes, onde as crianças pintam, brincam com massinhas, dançam e cantam. Com isso, ela engrenou de vez no francês e começou a entender que apesar de estarmos separadas, a mamãe volta e a vida segue. Nessa fase de adaptação ela chorou um pouco durante as duas primeiras semanas e logo as "tias" tratavam de entrete-la com as atividades. 


Antes mesmo de começar a garderie “trabalhamos” (muito) o assunto aqui em casa. Comprei livros, revistinhas e emprestamos muitos outros da biblioteca contando historinhas relacionados com a escola/garderie, da mamãe dando tchau, das brincadeiras bacanas, das professoras e assistentes. Acredito que esta “prevenção” ajudou na compreensão da separação, pois ela ficou sabendo com antecedência como seria o ambiente fora de casa, com mais crianças e tias para atende-la. Nos “imitávamos” a sequencia do livro em casa, uma brincadeira nossa, que foi bem assimilada por ela. 





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Férias no Brasil


A rotina foi estrategicamente interrompida pelas férias no Brasil, programadas há um bom tempo. Foi a primeira vez que Béatrice pisou em solo pátrio e eu pude, depois de quatro anos longe da terrinha, curtir o colo da mãe, ter longas conversas com o meu pai, dar risadas com meus irmãos e rever boa parte dos amigos. Como foi bom! 


Matei a saudade do feijão e arroz da minha mãe, das coxinhas, quindins, tortas e um tantão de coisas que há tempos o meu paladar não sentia. Foi uma esbornia gastronômica e até hoje estou fugindo da balança. 

Conheci, curti, apertei, beijei, abracei, mimei as sobrinhas Sarinha e Larissa que até então, tinhamos que nos contentar com o contato virtual. As outras sobrinhas, Letícia e Lígia, eram menininhas quando vim para a França e agora já estão na escola, leem e escrevem e, puxa vida, me da um aperto só de pensar que o próximo encontro elas estarão na pré-adolescência (será?). Pietro, meu afilhado, é um figura, querido e tímido, mas que pega fogo com os amigos. Foi bom demais participar um pouquinho do dia a dia com todos eles. 





Quanto a Beatrice, tudo foi novidade. Estar na casa dos avós  (o paraíso de cacarecos e coisas incríveis para mexer), ser mimada por eles, brincar com as primas, falar português o tempo todo e ir em festinhas de aniversario do Quim e Ciça, duas amizades que começaram aqui, por meio do blog. E falando em amizade virtual, também tivemos o prazer de conhecer a Lia, Emília e  a "petitA" Margarida. Fizemos um delicioso passeio na quadra com direito a parquinho e colher pitangas no meio do caminho. Tudo muito agradável e tranquilo. 

E, ainda no universo “novidades”, Bea comeu muita porcaria, desde pirulito e Kinderovo nas horas mais inapropriadas e, para o meu desespero, só queira saber de beber uma tal de água de limão (H2O), ao invés de água natural (que, alias, sempre gostou). Mas, ainda bem, teve o lado bom, experimentou mamão, pitanga, graviola, jabuticaba colhida do pé. 

Tomou banho de mar, brincou de baldinho, desenhou na areia e fizemos castelos. Avançou em frente, sem medo da imensidão do mar (que a encantou), sem saber o que era raso e fundo. Tomou caldo, engoliu água, pulou ondinhas e aprendeu que o mais seguro é ficar no rasinho. Conheceu as quedas de Foz do Iguaçu, que, para ela, ficou sendo o chuveiro enorme onde o gigante toma banho. 

Ficou com os avos para que eu e Ju também saíssemos para namorar um pouquinho. Até que enfim  gente! Não foram muitas as saídas, mas todas elas valeram a pena. E o melhor de tudo: chegar em casa e ela estar dormindo! Ponto para vovó! 


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O retorno...

Votamos na metade de janeiro e uma semana depois a Béatrice começou com a Maternelle. 



Veio a rotina de escola, professora, amigos novos e atividades de classe e, sobretudo o falatório em francês o tempo todo. Uma mudança enorme para quem estava no ritmo esculhambado de férias. 



Tive um pouco de receio, pois ela repetia todo instante “não gosto de francês, quero falar português!”. Mas, como crianças são seres elevados e que se adaptam às mudanças com uma rapidez incrível, a partir do momento ficou cercada de franceses por todos os lados, a tecla SAP foi acionada e começou a falar como se nunca tivesse saído daqui. 



Estou satisfeita com a escola, embora eu, como mãe, esteja enfrentando um conflito interno quanto a filosofia clássica, tradicional, quadrada e de como eu acredito que a Béatrice deveria ser educada na primeira infância. Eu tenho uma tendência para o alternativo e gostaria que ela estudasse numa escola dita “construtivista”, com olhar mais humano e que priorizasse o desenvolvimento individual de cada criança. Montessori me agrada e muitos aspectos da Waldorf também. Gosto das duas linhas. Mas, como não há escolas assim aqui na cidade onde moro, faço o que posso dentro de casa para que principios dessas pedagogias sejam aplicadas. 


Na mediateca


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O aprendizado e o lado B das férias prolongadas.

* Fui e voltei sozinha com a Béatrice. Junior passou somente o mês de dezembro conosco. Viajar com uma criança de dois anos e meio foi uma prova e tanto. Tive que estar “sempre” atenta e a postos para pegar as coisas numa bolsa equipada com itens anti-chiliques característicos de uma criança que passa pela fase do NÃO. Boneca, caderninho, canetinhas, adesivos, faziam parte do arsenal e, logico, paciência, muita paciência para contornar os PITIS que volta e meio ela dava. Tive que ser compreensiva e dar um desconto pelo cansaço e desconforto de dormir numa poltrona de avião e do tempo de espera nos aeroportos. No final das contas, tudo deu certo e até foi elogiada pelo bom comportamento. Eu não preguei os olhos e fiquei o bagaço em pessoa e, apesar do desgaste, valeu a pena, só que da próxima vez, um dos trechos (especialmente a volta que é mais puxada) o Ju devera fazer companhia.



* Em todos os aeroportos ela ficou pregada comigo na écharpe (wrapsling), ora na frente, ora nas costas. Foi a minha salvação na hora de pegar as bagagens e ela até pegou um soninho gostoso enquanto eu aguardava os voos. Não sei como faria se ela estivesse solta nos momentos críticos de uma viajem, como no check in, alfândega e espera de bagagens (que no Rio de Janeiro demorou uma hora e trinta minutos, uma eternidade para quem esta com uma criança cansada, com sede e com fome...). Viva o sling! 





* Béatrice foi uma menina e voltou outra. Melhor explicando: foi uma menina calma e relativamente obediente e voltou mais agitada, impaciente, dando tapas, cuspindo, batendo o pé, chorona e irritada quando contrariada. A falta de rotina, o excesso de SIMs dos avós , somando ainda a fase do “terribles twos” foram o start para que o pico da birrice se desse em solo brasileiro. Muitas vezes eu ficava sem saber o que fazer, pois ela dava PITIS homéricos e até então inéditos para mim. Cantinho da reflexão? Aguardar ela se acalmar? Pega-la no colo e tirar da situação onde originou o PITI e distrai-la com outras coisas? Explicar “N” vezes a que não foi legal o comportamento? Nada funcionava. O resultado disso é que, por vezes, ficavamos com aquela cara de “tacho” sob o olhar critico de que Béatrice mandava e desmandava. Com esse comportamento rebelde, Béatrice ganhou a fama de hiperativa, mal criada, terrível e... Encrenquinha em pessoa. 



* Quer um exemplo? Se eu chamava a atenção e explicava que ela deveria guardar os briquedos esparramados pela casa inteira ou que parasse de riscar parede, piso, armário e o que mais via pela frente (coisa que não faz em casa), ela chamava pela avo e pedia “socoooorrro vovó , me ajuda aqui”. Como super avós que são, davam todo o consolo e permissão para fazer o que ela quisesse. Resultado: eu ou avó guardávamos as tralhas espalhadas por todo canto. Senti que o nosso trabalho dentro de casa, do “arrumou, guardou” foi pro ralo em apenas dois meses e meio.

* Nas férias, deixou de ter horário para comer, dormir, tomar banho. Ta, afinal, férias é para sair da rotina. Também concordo, mas o que eu não sabia é que 2 meses e meio é, realmente, um período muito longo e capaz de transformar uma criança em outra! Ela dormia 11 horas da noite, acordava às 10h e não fazia as siestas mesmo estando pregada de sono. Ou quando fazia, os horários eram bem diferentes do habitual, mais para o final da tarde do que para o depois do almoço. Poucas atividades dentro de casa (choveu demais no final de ano, limitando as nossas saídas) e mesmo cercada de brinquedos, percebi que ela não se concentrava na “brincadeira” e ficava impaciente. Com isso cheguei a conclusão que, mesmo nas férias, é preciso o mínimo de rotina, para o bem geral da família. 

* O tempo para entrar “nos eixos” e aos “bons costumes” era curto pois ela começaria com as aulas. E não deu outra, o comportamento “rebelde” apareceu na escola. Cuspiu na professora e teve dificuldades para “enquadrar-se”. Hoje, um pouco mais de um mês depois do inicio das aulas, posso dizer que melhorou bastante. Esta mais calma, mais concentrada e mais compreensiva do que pode e o que não pode fazer. Não estamos livres dos “pitis” (normal na idade dela), mas agora temos mais controle da situação e é mais fácil de manter a harmonia e o dialogo. Definitivamente crianças precisam de limites, parâmetros e rotina. 

Hoje eu questiono, e muito, o ditado que os “pais educam e os avos deseducam”.... Esse “deseducar” confundiu um pouco a cabecinha da Béatrice e tive a impressão que todo esse tempo que a educamos com base no diálogo, estivessem ameaçados. Eu acho que os avós devem sim fazer as vontades e mimar, mas também podem impor limites e agir em parceria com os pais e, definitivamente, não da para fazer tudo que ela tem vontade e na hora que ela quer, sob o risco de estar criando um monstrinho. 



E dai fica a pergunta: quem disse que ser avô/ó é fácil? 



Eles têm a dura tarefa de também dizer “não” aos netos, ao mesmo tempo em que o coração de manteiga se enche de alegria em dizer todos os “sims” e realizar todas as vontades dos pequenos. 



As melhores recordações que tenho das minhas avós é de, justamente, pensarem de forma mais “madura” e flexível que os meus pais. Quantas e quantas vezes pedi para minha  me salvar da “tirania” daqueles dois malvados e caretas que não deixavam fazer o que eu tinha vontade, exatamente como fez Béatrice ao pedir “socooooorrrooo vovó!”. A história se repete e com isso aprendemos que a sabedoria esta no equilíbrio, a gente cedendo daqui (ok, comer pirulitos, chocolates, não ter horários. Na vovó pode, mas sem exageros... Afinal, eu fazia isso quando era pequena) e eles com uma pitada de firmeza de lá. Assim, acredito que todo mundo ficara mais feliz, especialmente a neta que, com certeza terá as melhores e mais doces lembranças de estar na companhia e na casa dos avós, especialmente nas férias.