12 juillet 2011

Eu, a Béatrice e o pano para amamentar

Béatrice aos 24 meses, grudada na sua tetê.
Acompanhei boa parte da discussão do mamaço real e virtual e agora parece que, definitivamente, os ânimos se acalmaram em torno deste assunto. 

Fiquei estarrecida com o que aconteceu no Itaú Cultural, no qual uma mãe fora impedida de amamentar seu bebê em local publico e que recebera a orientação de trancafiar-se numa enfermaria dos bombeiros para, ali sim, colocar os peitos de fora e ter maior privacidade (e é claro, não incomodar os outros). Achei um absurdo sugerir a sua retirada do ambiente enquanto o bebê chorava de fome. Em seguida vieram outros incidentes desagradáveis que aumentaram ainda mais a discussão sobre o aleitamento em público, culminando com os comentários infames de um tal Rafinha e trupe do QCQ, de que as mães que expõem seus peitos para amamentar são exibicionistas e que as mulheres lindas, estas sim, deveriam colocar os peitos de fora. Lamentável. 

E o Journal, esse tempo todo, ficou calado (alias, faz tempo né?). Também não postei fotos amamentando aqui ou na rede social do Facebook. Nesse intervalo de silêncio refleti sobre o «meu» amamentar em público, considerando o meu jeito de ser, e, até mesmo, a cultura do país onde vivo. Eu já escrevi que as francesas não amamentam ou se o fazem é por muito pouco tempo. A impressão que tenho é a de que amamentar criança grande em público não é algo comum ou bem visto. Eu sei que isso pode realmente incomodar e constranger os outros. 

Mas o fato de não ter postado fotos (e mesmo aqui no blog tenho poucas fotos amamentando), não significa não apoiar o movimento mamaço. Ao contrário, acho que o protesto foi necessário para deixar claro o fato de que bebês têm fome e sede e dependem de suas mães para suas necessidades primarias serem prontamente atendidas. E não importa onde estejam, em casa, no carro, na rua ou num centro cultural qualquer. O peito tem que ser oferecido. Desculpem-me os preconceituosos, mas o instinto materno é mais forte quando o filho esta chorando de fome e algo tem que ser feito na hora. Espero que o movimento mamaço tenha atingido o objetivo da conscientização.  

**
Hoje a Béatrice completa 2 anos e 2 meses e pede pela tetê quando da na veneta.

Fica dias sem lembrar que ela existe e percebo que é muito mais pela busca do conforto do que pelo leite (que ainda tenho um pouco). Fizemos, eu e ela, um bom percurso e sinto-me realmente realizada e feliz por ter chegado até aqui e por ter essa experiência pessoal para passar a ela. Amamentar vai muito além da nutrição do leite materno. Há o contato pele-a-pele, o calor, o cheiro e o instinto de querer proteger a cria. No meu caso, o peito também foi o consolo para atender a necessidade primária de sucção da Béatrice, pois ela não usou a chupeta ou dedo. Passei por períodos de desgaste, é bem verdade, mas tudo valeu a pena e hoje percebo passou tão rápido. 

Pouquíssimas vezes ela chorou para mamar.  Bastava resmungar ou dar o menor sinal de desconforto para que a sua tetê estivesse lá, pronta para cumprir a sua função. Para quem acompanhou a minha saga inicial com a amamentação sabe o quanto foi importante estarmos plugadas a maior parte do tempo. O peso da Bê não aumentava de forma satisfatória (também pudera, mamou pela primeira vez 24 horas depois de ter nascido. Hoje entendo que ela perdeu o reflexo da sucção que acompanha o bebê assim que ele nasce) e a pediatra me deu ultimato para dar a mamadeira a ela. Fui teimosa e acreditei que os meus peitos pequenos poderiam sim dar conta do recado e que poderia dar umas dobrinhas a mais na minha filha. O Juju esteve ao meu lado apoiando – e incentivando - cada etapa, cada evolução da adaptação ao aleitamento. A livre demanda foi fundamental para que a amamentação fosse em frente.

** 

E é por essas e por outras que o amamentar em público foi algo inevitável e aprendi a lidar com isso.  

Sim. Tive que me adaptar ao amamentar em publico, pois, confesso, não me sinto 100% à vontade ou confortável para ao expor as peitcholas. Isso para mim não é algo tão simples ou natural. Se assim eu o fiz foi, realmente, para atender à Béatrice. Nessas horas, buscava um lugar onde pudesse sentar, pensava no «dane-se» às pessoas em minha volta, pois minha filha precisa ser amamentada. 

Na maioria das vezes eu tive um grande aliado na hora de amamentar a Béatrice: o pano!  

Béatrice mamando enquanto eu fazia compras na IKEA na semana de inauguração da loja. Estava lotada de gente. Ela estava com 1 ano e 3 meses.
Eu uso a éharpe/wrap sling desde que a Béatrice nasceu. Já fiz passeios inteiros com ela grudada no peito, principalmente nos 3 primeiros meses. Ela ficava no meu colo e o ficava fácil e disponível para quando ela quisesse. Usar aécharpe foi muito mais prático do que ter que parar com o que eu estivesse fazendo para encontrar um lugar tranquilo e discreto, sentar, desabotoar a blusa, tirar o peito para fora e amamentar. O meu inseparável pano, permitia ter os braços livres para fazer qualquer outra coisa – como fazer compras no supermercado – e amamentar ao mesmo tempo. 

Essa é uma das experiências de vida materna que tive da qual realmente vivi intensamente. 

E mesmo depois de grande a Béatrice continuou mamando dentro da echarpe. Certa vez fomos convidados para um jantar na casa do nosso vizinho e ela já tinha uns 18 meses. Ficou tarde e ela começou a ficar chatinha de sono. Naquela época ainda ela dormia no peito e não ficava sozinha no quarto, muito menos em ambiente estranho. Não tive duvida : peguei a écharpe, dei a tetê, voltei para a mesa e ela dormiu ali, mamado no meu colo. Mamou na frente de todos e ninguém soube o que acontecia embaixo daquele pano.

**

Resolvi compartilhar um pouco do que vivi e aprendi pois acredito que possa ajudar algumas mães que, assim como eu, tem um pouco de vergonha em amamentar em publico. O pudor e a timidez são compreensíveis e eu entendo quem se sinta assim.  

Mas queria dizer que há solução (que não seja a de trancafiar-se num banheiro ou outro cubículo qualquer) e que é possível amamentar em publico e manter a privacidade. E, para as mães que pretendem amamentar por mais tempo, acredito que o pano/écharpe/wrap pode ser uma boa opção para evitar olhares alheios e atribuir mais confiança à mãe para seguir em frente. Posso dizer que a écharpe foi a maior aliada para que a amamentação fosse de forma prolongada, já que com o tempo, a Béatrice passou a assimilar o pano com a sua hora de mamar.  

Escrever este post me deu saudade dos nossos momentos de cumplicidade e rever as fotos me faz ter a certeza de que foi o melhor que eu poderia ter feito pela minha filha.
Béatrice com 20 dias de vida, mamando em Bruges, Bélgica.

14 comentários:

Ivana - coisademae a dit…

Ana, fantástico o "pano/écharpe/wrap" e as fotos estão demais, adorei mesmo. Olha, meu filho mais novo, João, vai fazer dois anos em outubro e continua mamando (mais num peito só, por conta de uma fissura que tive no outro, o que causou a interrupção das mamadas no peito doente).

Meu filho só dorme no peito. Impressionante. Eu sempre adotei a livre demanda (até hoje) e olha que meus seios são pequenos e deram conta do recado direitinho. Também, acho que o peito hoje é mais um consolo, um carinho, um aconchego, do que qualquer outra coisa (ele não chupou dedo, bico ou mamadeira). Amamentar é algo muito especial, um laço que une mãe e filho de uma forma inexplicável. Tem que sentir pra saber.

Adorei seu post.

Fiquei curiosa com uma coisa também: como vc conseguiu fazê-la dormir fora do peito?

Bjos querida!

Cristiane Iannacconi a dit…

oi, Ana,
tb sou super a favor das mães amamentarem em público!
eu mesma usava uma fraudinha de pano p me cobrir, pq tb não me sinto nem um pouco a vontade com os outros olhando... rs.
mas achei um absurdo total tirarem essa mãe do local p amamentar.
o ser humano "civilizado" é muito louco!
Bj
Cris

Ana Paula - Journal de Béatrice a dit…

Ivana,
O não dormir no peito veio junto com a adaptação do desmame noturno. E resolvi cortar essas mamadas pelo fato da Bê acordar de 2 em 2 horas e a maioria das vezes era para chupeitar! Eu fiquei muito cansada com essa acordação sem fim.
Foi ai que o pai entrou em ação e ele tb passou a levar a Béatrice para a cama para dormir. Eu dava o peito, explicava que ela não iria mais mamar à noite, que seria so de manhã.

No começo foi uma choradeira so. Ela não queria ficar com o pai e quando acordava à noite para chupeitar, ficava P da vida quando eu explicava que seria so de manhã.

Isso durou mais ou menos um mês. Em compensação ela passou a dormir mais horas seguidas. O que foi bom para todos.

Ja as chupeitadas diurnas... Muita conversa e explicações de que eu não gostava e que eu so daria o peito para o leitinho. O começo (e meio tb!) foram bem dificeis para ela aceitar. Hj ela dorme (e pede) para dormir com o pai que lhe conta historias e passa o dia brincando e fazendo as coisinhas delas. Sem tetê : )

Tudo passa : )

Ana Paula - Journal de Béatrice a dit…

Cris,
Depois que a gente tem filho, temos que lidar com tantos sentimentos ao mesmo tempo que o amamentar em publico pode não ser tão facil para algumas mães (é o pudor, veronha, razões religiosas, desconforto, "n" motivos). Eu tenho consciência de que tenho que lidar melhor com isso e quem sabe, para o segundinho, eu esteja mais desinibida!?

Cíntia Anira a dit…

O recanto da Ana: Eu chego aqui nesse blog e me sinto acolhida. É como se chegasse em um ambiente de relaxamento, meditação. Parece que escuto o barulho de uma fonte de água e a voz suave de uma mãe tranquila. Ana, seu relato foi lindo. Se um dia eu tiver chance, também quero fazer assim. Um beijo no seu coração e parabéns pela forma linda de maternar!

Livia Luzete a dit…

Sim minha flor, foi o maio bafão o acontecido no Centro Cultural do banco!!
Eu nunca me constrangi em amamentar meus filhos(que foi por pouco tempo),mas tinha o recato de nos cobrir. Ahh vá!!! Se eu quissese expor as peitolas eu já faria isso antes. Não iria usar a desculpa de ter que amamentar. Bom,não estou dizendo que as mulheres que nem ligam para isso estão usando de desculpa. Mas é pq li comentário como: vc pode mostrar o seio no carnaval e não pode amamentar. Acho que essa frase merece cuidados na análise. Primeiro que eu não quero ser vista como a piriguete que se expõe. Para mim o amamentar é sagrado,mas meus peitos só to afins de mostrar para quem tenho intimidade. Pq o seio tem esse dupla significado aqui no Brasil: provedor e ícone sensual!! Uma vovó pode passar e achar lindo ver uma mulher amamentar,mas o adolescente ou o cara ninfomaníaco vai ver essa mulher como uma M.I.L.F. (Mom I'de like to F*ck).

Livia Luzete a dit…

Como vcs estão lindas e a Bea enorme!
Beijos.

Carol P a dit…

Ana,
Parabens a voce e a sua echarpe !
Para ser sincera com vc acho extrmamente desconfortavel pra todos tirar o seio pra fora e dar para o bebe em qualuqer lugar. Acredito na educacao em duas vias entao colocar um paninho ou sua echarpe ou os ponchos de amamentacao a solucao. O bebe se alimenta quando quer e ninguem fica desconfortavel. Acho que ter q ir ao banheiro para amamentar, um pouco demais, assim como estar almocando ou em um lugar de adultos e alguem colocar a peitchola de fora na minha cara.
Bj Carol

Dani Garbellini a dit…

Ana, quando comecei a amamentar, também não me sentia tão confortável em amamentar em público ou na frente de qualquer pessoa.
O sling foi meu grande aliado quando Arthur nasceu, assim como você, passeava por ai e ninguém sabia que ele estava mamando. Ou sabiam, mas não viam.
Acontece que meu filho é MUITO calorento e aqui faz muito calor, né? Ele nasceu no inverno, mas logo que começou esquentar, amamentar no sling ficou impossível. Ele suava muito, mas muito mesmo. Ficava com o cabelo pingando suor SEM o sling, imagina com? Fui driblando daqui e dali, mas logo foi ficando insustentável e aboli o sling. E nem mesmo paninho dava certo, ele não aceitava de forma alguma!
Nestas alturas, eu já estava mais seguro do que fazia e conclui que jamais deixaria de amamentar meu filho por isso, afinal, não havia maldade ali. E os incomodados que se mudassem. hehehe
Mas considero o sling super válido, especialmente em países como onde você mora, em que amamentar é ainda mais tabu que no Brasil. Por outro lado, o tabu no Brasil está aumentando e isso atrapalha e muito a amamentação. Conheço sim quem acabou desmamando por não amamentar em público, atrapalhando o aleitamento. E me preocupa que, apesar de toda a divulgação sobre a importância de amamentar, o tal paninho, ao invés de ajudar, atrapalhe...
Beijos!

Lia a dit…

eu acho tão engraçado os franceses encanarem com a amamentação em público, já que aí o clima é tão "cada um na sua". Je m'en fous pas mal...
Bjos!

@line a dit…

Oi Ana!! Adorei o post!! A écharpe também nessa hora é mesmo uma super aliada!! O Joaquim parece que definitivamente não tem mais interesse em mamar, eu ainda ofereço, acho que até mais do que antes, na esperança de que ele ainda queira um pouquinho, rssss... mas mocinho parece satisfeito. C'est la vie... e com certeza eu estou sentindo mais do que ele,rsss... Nós estamos em Paris, sexta cedinho embarcamos de volta para casa... e os sentimentos são os mais diversos possíveis. Entre eles já uma saudade grande de vcs!!! Que bom que a gente se vê em breve!! Bjos pra vcs!

Grazi a dit…

Ana,
Adorei sua idéia do écharpe. Quando amamentava minha filha sempre andava com uma toalha fralda na bolsa para me cobrir, pois eu tb sou tímida como vc.
Ah e minha filha tb usou meu peito como chupeta. Mas hj ela já está com 14 anos rsrsrs.

Mikelli a dit…

tb vamos optar pelo pano aqui, apesar de todos os lugares que vendem desaconselharem a mamar no pano! engraçado ne? Acho que pra criancas maiores deve ser normal, mas pra bebes eles nao gostam de aconselhar pq o bebe iria mamar "sentado" ao invés de deitado, mas sinceramente, nao vejo impecilho nenhum. Tentarei com certeza. acho que aqui eles sao liberais demais e acharam um absurdo eu querer amamentar dentro do pano haha bjs!

Carolina a dit…

Adorei o post, e fiquei animada com o pano pra amamentar! Eu confesso que evitava sair de casa quando meu filho nasceu, para evitar ter que amamentar fora de casa, ou quando acontecia, era chato ter que ficar se escondendo ou procurando um lugar discreto. Mais pelos outros do que por mim, o que é uma besteira! Mas enfim, decidi que com minha filha vou testar o pano, que eu acho muito legal, e a ideia de poder amamentar no pano, protegida de todos os olhares é mesmo muito interessante, adorei! Estou empolgada, obrigada pelo post! :o) Recebi o comentário no blog do Luca, um beijo pra vocês e otimo feriadao também! Que bom que maridao faz o "pont", aqui vai ser sem ele mesmo, que esta na Alemanha pro trabalho! :o) Mais uma vez, adorei o post, estimulante!!!