19 mars 2011

Blogagem coletiva - O parto na França

Havia apenas sete meses que eu desembarcara de mala e cuia à Laon quando a gravidez foi confirmada. Enjoos e o barrigão crescendo faziam parte do pacote das grandes mudanças que aconteciam na minha vida, como a de morar no exterior, falar outro idioma e curtir a vida de recém-casada.

Lembro que eu ia às consultas do pré-natal acompanhada pelo Ju, pois eu não conseguia absorver tudo que me era informado. Estudei muito nesse período, eu queria saber o que acontecia comigo, com o meu corpo, com a vida que se desenvolvia dentro dele. Eu anotava as perguntas num caderninho e o dicionario estava sempre na minha bolsa. Carregava comigo o livro Nascer Sorrindo (Pour une Naissance sans Violence), de Frédérick Leboyer, para exprimir as minhas expectativas e de como eu gostaria que Bétrice fosse acolhida na sua primeira hora fora do meu ventre, com pouca luz, vozes baixas e tranquilidade. E de fato, foi nessa atmosfera respeitosa que Béatrice nasceu. O parto foi normal e tudo ocorreu dentro daquilo que eu esperava, de acordo com as informações, preparo e maturidade que tinha naquela época.

Embora o parto tenha sido tranquilo, tivemos um probleminha logo na sequência. Foi verificado um « balonamento anormal» na barriguinha da Bê e ela não estava expelindo o mecônio. Por causa disso ela teve que ser transferida para outra cidade, onde havia um hospital com maior infraestrutura e equipe pediátrica de emergência caso precisasse de uma intervenção cirúrgica, a qual, ainda bem, não foi necessária.

O parto e o que tudo que aconteceu depois estão neste post aqui.

Mas hoje o assunto hoje não gira em torno da minha ex barriga, mas sim em algumas informações referentes ao PARTO na Republica da Baguete, as quais compartilho abaixo.

Vou começar pelo básico: o parto é, via de regra, normal – As francesas têm seus filhos pela via baixa, ou seja, o parto é prioritariamente normal. Partindo dessa premissa, a aperturiente encontra suporte e informações nos cursos de preparação ao parto ou nos encontros com a sage-femme.

Já as cesáreas… – Embora o parto normal seja a regra e haja conscientização disso, tenho a informar que a taxa do numero de parto cesariano aumentou nos últimos 30 anos. Hoje, conforme pesquisas – vide este link aqui – ele corresponde a 20% dos partos realizados, bem abaixo do indice de 80% do sistema privado do Brasil.

Este percentual esta atrelado ao setor privado, onde a taxa de cesáreas tem-se mostrado mais acentuada. Os motivos, além daqueles determinantes para a intervenção cirúrgica (ex : bebê transverso, quadro especifico de hipertensão, desproporção cefalopélvica, sofrimento fetal) também estariam ligados ao «fator de organização dos nascimentos» ou para «otimizar os custos e de produção». Em outras palavras, existem clinicas particulares onde cesáreas são programadas para reduzir o numero de pessoas trabalhando à noite e (in)diposnibilidade do médico durante o final de semana.

Esta constatação tem causado o maior « frisson » e o dito « abuso das cesarianas » vem sendo fortemente criticado.

A peridural A parturiente tem a livre escolha para parir com ou sem peridural. Hoje, mais de 60% das mulheres que têm seus bebês em maternidades francesas submetem-se à medicalização para parir sem dor. Há, certamente, maternidades que privilegiam o aspecto humano – acolhimento, escuta, disponibilidade, possibilidade de caminhar, de mudar de posição, tomar uma ducha ou ir para a banheira, acompanhamento do trabalho de parto por uma sage-femme, etc. – e, nestes casos, a taxa de peridural fica cai e em torno de 30%.

Em relação a estes três primeiros tópicos, tenho a dizer que a maternidade de Laon, onde Béatrice nasceu, é classificada como nível 2, ou seja, dispõe de serviço de neonatologia e o índice de cesária é de 17,6% . No ano de 2009, ano em que a Bê nasceu, computou-se 1.035 partos, sendo que 57% com utilização de peridural e índice de 20% de episiotomia.

Com isso posso concluir que o nível de cesáreas é relativamente baixo. Quanto à peridural, engrossei o coro para chegar o percentual de 57% e não levei pontos de episiotomia.


Além de uma visita pessoal à maternidade escolhida para o bebê nascer, eu considero importante fazer uma pesquisa global sobre o funcionamento desse estabelecimento e verificar se há salas de espera durante o trabalho de parto, se a equipe favoriza o parto sem intervenções ou o minimo delas. Enfim, tem que sentir-se bem e segura no lugar escolhido para o nascimento do bebê. «Sentir » a maternidade faz parte da tomada de decisões importantes.

Particularmente não tenho queixas da maternidade de Laon. Porém, o tempo passou, o idioma e comunicação melhoram consideravelmente e as informações também estão sendo processadas de outra forma. Me sinto mais segura para questionar os procedimentos da maternidade e negociar, conversar sobre como eu desejaria parir. Hoje, já conhecendo melhor o sistema de saúde, consigo analisar outros fatores com mais maturidade, em especial nos dois tópicos abaixo :

Doulas – A ideia de acompanhantes para dar suporte físico e emocional durante o trabalho de parto esta em ascensão aqui na França. E este suporte tem múltiplas vantagens, tais como a redução de uso de medicamentos e menos intervenções medicais, como a cesária, fórceps e peridural.

E quanto custa? Entre 400 e 500 euros por um pacote de cinco a dez visitas à domicilio, antes e depois do parto, e ainda, a sua presença no dia do nascimento do bebê. Não é reembolsado pela seguridade social.

A Associação de Doulas da França mantém um anuário atualizado disponível para pesquisa e contatos neste com as doulas. 


Parto domiciliar – Hoje na França estima-se que um pouco mais de 1% das mulheres têm seus filhos em casa, muito abaixo da Holanda, onde o índice é de 30%. Esta larga diferença tem a ver com padrões culturais, pois as francesas sentem-se mais seguras no ambiente hospitalar, além do que o atendimento é publico.

Entretanto, se o desejo é o de parir em casa, recomenda-se procurar uma sage-femme liberal da região. O repertorio oficial e atualizado dessas profissionais esta disponível no site do Conselho Nacional da Ordem das Sage-Femme.

A minha opinião sobre o parto domiciliar ? Eu o vejo sem sem tabus, ao contrario, a na minha opinião pessoal o nascer em casa fortalece a relação mãe e filho e nenhuma separação intervém para paralisar esse momento único e precioso. Se a gravidez se desenvolve sem complicações, se mãe e bebê estão bem, porque não escolher esse caminho?

Bem, e se você teve a paciência de ler este post imenso, peço para ir um pouquinho mais além. Aproveito o ensejo para compartilhar um video do filme « Le Premier Cri », que assisti quando estava gravida e que até hoje me emociono com as cenas.

Eu acho que tem tudo a ver com o tema da blogagem de hoje. Indepentemente da cor, raça, credo, cultura ou nacionalidade o momento da chegada do nosso bebê é sublime. O primeiro olhar trocado entre mãe e filho mostra que que há sim uma linguagem unica e universal.



PS : A mãe francesa é a que dança Ballet e a índia (linda e tranquila), da nossa região amazônica
PS2: Escrevi mais detalhes sobre este filme magnifique neste post.

***

Saiba como funciona o parto em outros países, acessando o site Mães internacionais, direto neste link AQUI e otima viagem ao mundo da partolândia em terras estrangeiras.  


12 commentaires:

Ingrid Souza a dit…

Muito bom o post e obrigada por compartilhar esse filme lindo! =)

Beijocas

Carla a dit…

Que bom que conseguiu um parto feliz e tranquilo! Parece que a experiência do parto normal aqui na Suíça é maravilhosa, também de muito respeito com a mãe e o bebê. Infelizmente, não vou ter o parto normal para o qual me preparei, mas espero que a experiência seja a menos traumática possível para o bebê. Depois conto como foi.

Carine a dit…

Ana Que emoçao viver tudo isto com tao pouco tempo de França, confesso que chorei ao ver tua bela princesa partir, nossa vc deve ter vivido uma barra durante estes dias. Legal ter colocado todas as informaçoes sobre a França:)! vi que fiz um erro sobre o livro de Leboyer, nao sabia a traduçao em português e fiz ao pé da letra, ainda bem que falou sobre ele.
Estou sempre pronta p trocar figurinhas com vc, é neste contexto que imagino a maternidade ideal para os dias de hoje:)beijao

Flavia a dit…

ei queridona...

parabéns pelo post, dá pra ter uma ideia bastante clara de como são os partos por aí.
Achei parecido, mas um pouco melhorado que a España, (menos o percentual de epsiotomia, que por aqui é altissimo!)

E fechou com chave de ouro com esse trailer lindo!!

beijo grande

Dani a dit…

Ana, post com otimas informaçoes, o video emocionante. :)
Lembro atè hj do teu relato de parto, lindo!
bjo

Nivea Sorensen a dit…

Olá Ana.
Gostei muito do post e prometo que assim que o meu parto passar (porque eu sou altamente influenciável) volto para ler sobre a sua experiência em particular.
Um beijo,
N.

Joice a dit…

Grata por compartilhar o vídeo!!!Emocionante assim como teu relato de parto! O milagre que é parir, né! Beijos e beijos

Clarinha a dit…

Adorei o seu post. Nossa, como eu queria que meu filho tivesse nascido num lugar assim, com estrutura para o parto normal. Eu me preparei para o normal, mas acabou sendo cesárea. Maior frustração pra mim. Vamos ver se terei uma segunda chance!

Ah, e não consegui conhecer a Roberta! Nos desencontramos em Singapura. Vai ficar pra daqui uns meses... Peninha!

Beijos

Livia Luzete a dit…

Eu acompanhei tudo!!! Que privilégio! Mesmo sendo via blog. Coisas da "santa" internet.
Adorei seu post, e esse lado jornalístico que você deu ao tema.

Querida além de vir deixar um beijinho vim agradecer o carinho, vendo que sabe que eu sempre dou um Oi nas passagens de estações. A faculdade...me tomando o tempo! Ai!

Ai que linda a petit Béa caçando joaninhas!! A natureza é sábia, sabe o momento de nos dar aconchego(com um tempo que pede chá,por exemplo) e a alegria do sol! AMO ;)

Beatriz Zogaib a dit…

Olá, leio seu blog, mas acho que nunca escrevi... Muito bom o texto! Interessante saber como funciona em outro país. Ótimo saber que incentivam o parto normal, mas ruim ver que até aí, a cesárea vem ganhando espaço...
Agora, que história é essa de blogagem coletiva?
Beatriz
www.vidadamami.blogspot.com

Beatriz Zogaib a dit…

Puxa, amei ver o parto de lado também... não conhecia!
Obrigada.
Beatriz

Mimirabolante a dit…

Adorei o vídeo.....Tive o prazer de ter dois filhos de parto normal,sem anestesia e amamentei-os até os dois anos.......Hj eles tem 27 e 25 anos resp. e são super saudáveis......Adoro ler estas experiências.....Seu blog é lindo !!!!bjcas