Semana passada fomos a uma loja de brinquedos gastar um “cheque-presente” que ela ganhou no final de ano. Rodamos a loja e deixamos a Béatrice fazer suas escolhas. Logo de cara, ela agarrou uma boneca de cabelo ruivo, praticamente idêntica a outra que ela já tem. Explicamos que ela já tinha uma (a única diferença era a cor do cabelo) e que seria legal escolher outro brinquedo.
Ela passeou mais um pouco com a boneca e, lá pelas tantas, trocou-a por um gatinho de pelúcia com uma mamadeira na boca. A escolha se justifica pelo fato de Béatrice adorar gatos. Mas sinceramente falando, o bichinho era meio feinho e desta vez, a escolha foi barrada sob a explicação de que ela já tem outros em casa e que este logo ficaria encostado e esquecido em algum canto.
Andou um pouquinho com o bichano no colo, colocou-o no lugar e escolheu outro brinquedo que estava logo ali na sua frente, na prateleira de cima: uma Moranguinho cor-de-rosa, cheirosa e com florezinhas iluminadas e bastava apertar um botão para ela, também, cantar uma musiquinha. Tenho as minhas ressalvas e, até agora, nunca compramos um brinquedo sequer que ascende, apaga, canta ou dança sozinho. Os que ela tem, e nem são tantos assim, foram dados de presente. Cada coisa no seu tempo.
Agora eu acho mais importante que ela brinque com elementos simples, que crie situações e diálogos e que sua imaginação flua e dê “vida” às suas bonecas. Acredito que a escolha da Moranguinho também se justifica pela “familiaridade”, pois trouxemos do Brasil algumas bonequinhas deste tipo (todas de segunda mão, doadas pela prima).
Finalmente ela se encantou com a Branca de Neve, na versão bailarina. Ela já tem a Belle (ruiva) e a Chochette (loira) e, por ser um personagem diferente, pensei com os meus botões que seria interessante fazer um trio de amigas, todas elas, por coincidência, de saias bem curtas.
Ainda para ter certeza da sua escolha, sugeri a Branca de Neve “tradicional”, com vestido longo amarelo e corpete azul. “Não mamãe, quero essa” (a de saia “tutu”). Ok, ficou com a versão bem menos “princesa” e bem mais pelada.
Ainda com créditos para torrar, escolhi um brinquedo com um caráter pedagógico: um cordão (tipo cadarço) e missangas grandes de madeira para ela manusear e brincar de fazer colar. Mamãe aqui pensa no seu desenvolvimento da motricidade fina e, também, para dar uma variada na versão macarrão tubinho dentro do cadarço, que já rendeu alguns colares feitos à lá maison.
E, como tinha mais um tiquinho de crédito, escolhi para ela um terceiro brinquedo: um corpo de bombeiros completo! Os homenzinhos vêm equipados com megafone, extintor de incêndio, walk-talk, machadinha e até mascara de oxigênio.
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Eu confesso que tenho certa dificuldade em escolher brinquedos para a Béatrice quando o negocio envolve marca disso ou marca daquilo, ou então comprar Barbies, Polys e acessórios, ou bonecas que fazem tudo, desde cocô a andar sozinha.
Eu não me vejo comprando esses brinquedos compulsoriamente ou, pelo menos, questionar se é disso mesmo que ela precisa “agora”.
Eu não sei como será amanhã, se ela pedir “mamãe, quero a Barbie que voa, salta de paraquedas, anda de BMW e mora numa mansão”, não sei se estarei disposta a bancar uma coleção ou ficar antenada com os últimos lançamentos e, sobretudo, estimular esta modalidade de brinquedo 100% voltado para um mundo de luxo e cor-de-rosa.
Se no futuro ela tiver amiguinhas que tenham esses brinquedos, se ela demonstrar interesse e pedir, ainda devo pensar como proceder ou como contornar a situação. O que posso dizer é que eu procuro evitar os excessos e que hoje, Barbies e Cia., não combinam com a criança que se diverte com o que tem e isso inclui seus bichos da savana, fazenda, bonecas de pano e brinquedos de madeira.
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Fato é que Ela escolheu uma boneca e Eu escolhi um corpo de bombeiros!
O uso da TV aqui em casa é controlado e não são raros os dias em que o aparelho fica desligado. Ela assiste DVDs e não temos canal infantil pago e, com isso, poucas vezes vê propagandas comerciais. Ela tem o livro da historia da Branca de Neve e já assistimos juntas algumas partes no youtube, ou seja, ela tem familiaridade com o personagem. Sabe que ela come uma maçã, que tem uma bruxa e que faz amizade com sete gentis anões. De certa forma a sua escolha foi influenciada pelo que ela já conhece e o mesmo se diga das escolhas anteriores.
Como ela esta na encantadora fase de contar e inventar historias
E o resumo da opera é o de que a Branca de Neve, de fato, virou a melhor amiga da Belle e ainda por cima ganhou quatro amigos protetores e corajosos, os “anões-bombeiros” (é assim que eu os chamo), que a previnem de não comer a maçã envenenada e a orientam a comer “goiabas”. E pronto, a historia da Branca de Neve ganhou uma nova versão. Viva a imaginação!
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E eu, porque raios escolhi um corpo de bombeiros? Boa pergunta.
Tenho alguns critérios para comprar brinquedos e eu procuro ser cuidadosa e usar do bom senso.
Não é um corpo de bombeiros qualquer, mas sim “equipe” de quatro bonecos de madeira, bem bonitinho, bem acabado, flexível e articulado.
Faz algum tempo que dou preferência pelos brinquedos de madeira, pela sua simplicidade, suavidade do toque, do manuseio do material, durabilidade e o respeito pelo que vem da natureza. E quando vejo um brinquedo de madeira dando sopa e se ha condições de comprar (aqui brinquedos ecologicamente corretos também custam mais caro), eu não penso duas vezes, eu compro.
Por isso, dois importantes requisitos foram cumpridos: ser de madeira e o preço justo.
Outro fator é que sou contra a submissão sexista imposta às crianças por meio de brinquedos, publicidades, catálogos e tudo mais que condicione a categorização do “só para meninos” e “só para meninas”.
Eu procuro filtrar e reflito, acima de tudo, na finalidade do brinquedo e no que ele poderá ser útil no desenvolvimento e criatividade da minha filha e pensar desta forma afasta a sedução e o impulso pela fofice, “frufruzice” cor-de-rosa ou pelo brinquedo da vez, pelo esta na moda.
Não me agrada a ideia de que, para meninas, só panelinhas, Barbies e Cia. e para meninos personagens musculosos, guerreiros, brinquedos de construção e, o pior, armas de brinquedo (me da arrepios escrever isso). Porque os meninos podem se imaginar pilotos de corrida, construtores/engenheiros, astronautas, bombeiros ou aviadores e as meninas devem se contentar e sonhar com a casa “luxuosamente” decorada?
Sem contar que os brinquedos para meninas ensinam e as estimulam, desde cedo, a serem vaidosas, consumistas e assumirem o papel principal nos serviços domésticos.
Por isso é que não me vejo comprando uma casa assim:
Definitivamente, não consigo limitar e basear as escolhas somente na beleza e delicadeza cor-de-rosa, que o “padrão impõe” às meninas.
Ao contrario, eu acredito que uma menina pode brincar com os bonequinhos de corpo de bombeiros e carrinhos (que a minha filha também tem), assim como meninos podem brincar de fogão, panelinha e casinha.
Um menino que brinca de limpar a casa com uma vassourinha ou aspirador ou que goste de fazer comidinhas no fogão esta aprendendo lições da vida, por meio de uma brincadeira. Quem sabe ai esteja sendo plantada a semente de um futuro homem colaborador dos afazeres domésticos dentro de casa (e numa visão macro, na construção de um homem menos machista), coisa rara hoje em dia. Na França é muito comum os meninos terem a sua cozinha de brinquedo e não é a toa que maior concentração de chefs de cozinha estão aqui. A brincadeira de hoje pode revelar as potencialidades do amanhã.
Reflito também que uma casa cor-de-rosa e com elevador não corresponde à realidade, a realidade da nossa casa, dos vizinhos, nossos amigos, nossa família e tudo mais que cerca a Béatrice. Acho muito mais democrática e honesta, esta escolha:
Devo dizer que Béatrice tem sim seus brinquedos de plástico e também tem muita coisa em tecido, outro alvo de nossa preferência.
Mas a diferença é que quando penso em comprar algo de maior qualidade e que o brinquedo custe um pouco mais caso, eu não consigo pensar em Barbies e Cia e pagar uma pequena fortuna por isso.
Se for para gastar dinheiro (aqui vale as economias para um presente especial de aniversario ou natal), prefiro, infinitamente, os de madeira.
Ela tem a sua Belle e Branca de Neve, tem vestido de princesa cor-de-rosa (delicadamente feito pela tia) e brinquedos de personagens de desenho animado. O que eu procuro é o bom senso e não ficar pensando somente nesse universo tão feminino e ouso dar e oferecer outros brinquedos interessantes, mesmo que eles sejam rotulados de “só para meninos”.
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Seguindo essa linha de não estabelecer um padrão discriminatório e sexista de brinquedos, a IKEA teve inteligente sacada em fabricar bonecos de pano e que, aparentemente, não tem sexo definido.
Eu comprei o menino/a que tem a carinha de oriental (estou de olho no loirinho e outro da cor negra) e algumas roupinhas:
Eles entenderam que crianças fantasiam, imaginam, criam e tanto faz se o alvo da imaginação é um bonecO ou bonecA, menino ou menina, tudo depende da brincadeira que criança inventa na hora. Crianças têm “seus amiguinhos/as, irmãozinhos/as” pra cuidar, brincar de colocar e tirar roupas, levar para todo o canto para passear. Isso é salutar e faz parte obrigatória do seu desenvolvimento.
Outro ponto positivo é que boa parte dos brinquedos da IKEA é de pano, o que reforça o perfil de engajamento sustentável e ecológico desta empresa. Só para lembrar, a IKEA é sueca e a Suécia é o primeiro pais do mundo em igualdade entre os gêneros (irremediavelmente arraigada na sua cultura) e um dos primeiros em qualidade de vida, além de terem um respeito invejável na educação de suas crianças, portanto, não me causa surpresa a ideia e concepção destes bonecos e dos brinquedos em pano tenha partido dela. Eu acho genial, educativo, apropriado para crianças e o preço é otimo (9,99 euros!).


