Quando?
Como? Quem é violento? O qué violência? Uma palmada ou uma bater com a mão na
mesa com força, com os punhos fechados de tempos em tempos é bem menos grave do
que as cenas de violência que lemos e vemos diariamente nos telejornais ou
infinitamente menos grave do que a explosão da bomba de Hiroshima...
Bem... Você
acha isso?
Lagrimas, guerra
e violência fazem parte da construção da historia da humanidade e do nosso cotidiano. Basta assistir
ao jornal das oito para ver o desfile de noticias violentas. Eu fico com o
estômago embrulhado e com uma sensação de revolta quando assisto algo na TV que
tenha cenas de violência contra as crianças, principalmente quando elas são maltratadas
pelos seus pais e familiares, pessoas estas que deveriam ser a sua principal
fonte e referência de amor e compreensão. Eu me sinto mal e
não muito raro choro. Choro pela dor alheia, pelo sofrimento e dor de uma criança;
pela sua inocência e fragilidade... Pelo seu futuro. Então, se isto me afeta e
me faz mal, eu poderia dizer que é violento para mim. Certo?
Então hoje
eu vou apresentar uma historia bem banal. A historia de Pedro. E eu proponho
que cresçamos junto com ele ao acompanhar os seus passos de vida.
A sua mãe o
carregou durante nove meses e estava radiante por esperar um bebê. Por ele, ela
parou de fumar. Mas chegou um momento que
ficar sem o cigarro tornou-se insuportável e ela voltou a fumar. Ela preparou
um quarto para Pedro. Ela trabalhou pesado para colocar todo o revestimento de
papel parede e demorou um bom tempo para terminar. Ela sentiu uma contração dolorosa
que apareceu de surpresa. Mas ainda não era o momento. Ela ainda tinha dois
meses pela frente. Entretanto, ela
passou dos seus limites. Ela praticou uma violência contra si própria.
Pedro
nasceu. Nasceu no seu tempo, mas foi necessário o uso do fórceps e o seu cordão
foi imediatamente cortado[i].
Seus pulmões se abriram brutalmente desencadeando o choro de dor. Seu rosto
contorcido, vermelho, exposto à luz forte das lâmpadas acesas, seus punhos
fechados com força não exprimiam a alegria e serenidade... Ele nasceu com violência[ii].
A mãe de
Pedro precisava descansar. Ele foi levado para o berçário e lá outros bebês
também choravam com os punhos fechados. Eram
choros sem consolo.
Pouco a
pouco, mamãe e bebê vão se conhecendo e os dias passam com uma rapidez incrivel.
Pedro sorri, balbucia.
Aos 10
meses, ele começa a engatinhar. Mas ele está dentro do “chiqueirinho” e isto
lhe faz chorar de raiva. Não havia liberdade
para usar a força dos seus braços e pernas. E mais, os objetos do outro lado
das barras é que ele gostaria de mexer –
a cadeira, a caixa, a esponja, o livro – estão totalmente inacessíveis. Se ele pudesse
tocar os objetos e explorar o ambiente, saberia que objeto era aquele que estava embaixo
da cadeira. Saberia também que há outros objetos no ambiente, o que é pontudo,
suave, grande, pequeno, frágil... Mas ele não pode fazer isso. Suas mãos estão aprisionadas.
Enfim, um
dia ele começa a andar e sua mãe o tira do chiqueirinho com mais frequência.
Mas toda vez que ele mexia em algum vaso ou nas tomadas, catálogos, recebia uma palmada na sua mão.
Ele chorava
e ele aprendeu que, mesmo tendo apanhado, não deveria chorar e deveria segurar
o choro. Isso era realmente difícil... Ele
estava triste e deveria conter o choro. Tente e você verá. Talvez você
mesmo esteja acostumado a este exercício. Mas este não era o forte do pequeno
Pedro.
Então ele
começou a fazer birras, pirraças... Ele se jogou no chão no dia em que foi
impedido de mexer no despertador que fazia um tic-tac intrigante. A mãe abruptamente
tirou o despertador de suas mãos e ainda avisou: “Na próxima vez que você mexer
onde não deve, você apanha!”
Pedro
aprendeu a ser comportado. E agora ele vai à escola. Mas hoje ele esta
emburrado, com a cara fechada e de poucos amigos. Outro dia a professora
ameaçou coloca-lo de castigo porque ele não queria tirar o seu avental de pintura.
Diante da resistência do aluno, a professora deixou-o isolado num canto da
sala. Pedro esperou, ficou quieto, não chorou e quando terminou o tempo
estipulado, ouviu um consolo: “Isso não foi nada”. Seu
coração batia forte, com violência, mas a professora nada ouviu, nada
sentiu.
Quando ele
estava na casa do seu amigo Felipe, os dois começaram a brigar. Felipe se
defendeu e os dois bateram um contra o outro.
Aos cinco
anos, Pedro certamente conhecia, sentia e sabia o quanto seus pais lhe amavam. Mas
ele conheceu, igualmente, as violências. E elas se acumularam. Os socos, os
tapas dados em Felipe foi a forma com a qual Pedro descarregou a violência que
acumulou dos adultos.
Temos
observado que a violência física, emocional e psíquica dirigida às crianças
durante a sua primeira infância, em nome de uma “certa educação” - a tradicional, opressora, autoritária e que
não ouve a criança com empatia - não respeita as necessidades de base
essenciais:
- de estar bem fisicamente;
- de estar em segurança;
- de ser livre;
- de aprendizado;
- de ser ativo.
Uma
primeira conclusão aqui se impõe: a criança tem dor, o mundo é violento com ele quando as suas necessidades de base não
são satisfeitas.
E o
amor? O que dizer de ditados como “doi
mais em mim do que você” ou “quem ama, castiga”? Não seria melhor dizer: “quem
ama, acolhe e responde às necessidades de base da criança.”
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Nos próximos
posts mostrarei que, no fundo, todos estamos cercados de pequenas violências diárias que sequer nos damos conta e a historia de Pedro ainda continua...
[i] A prática de cortar o cordão logo após o
nascimento foi banida nas maternidades de Londres , conforme o noticiado no
Jornal Bom Dia Brasil, de 03 de maio de 2013. Segundo a reportagem "No Brasil, a Federação dasAssociações de Ginecologia e Obstetrícia também recomenda esperar para cortar ocordão umbilical, mas não há uma orientação unificada para os hospitais." Pena que a reportagem também não aborda o sofrimento da criança com a pratica do corte antecipado do cordão umbilical...
[ii] O trecho faz referência a Frederick
Léboyer, « Pour une naissance sans
Violence », cuja tradução literal ficaria “Por um nascimento sem
violência”. No Brasil o livro recebeu o titulo de “Nascer
Sorrindo”. Uma tradução bem mais suave, frugal e... Alegre. A linguagem
francesa é direta, precisa, sem rodeios, sem floreios. O titulo do livro original
cairia bem hoje em dia, graças a seriedade nas discussões e debates sobre a
violência obstétrica praticada desmedidamente no Brasil.
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O conteudo do texto é baseado no livro "Le cotidien Avec mon enfant", de Jeannette Toulemonde. O livro foi escrito sob a inspiração e experiências de Maria Montessori, ou seja, uma releitura.









